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Do Tacacá à Tapioca: a gastronomia popular brasileira tempera a vida do carioca

  • 10 de jun. de 2017
  • 8 min de leitura

Na Zona Norte, o pernambucano mata a saudade da autêntica tapioca, na Zona Sul, a paraense se delicia com um prato de Tacacá, no Centro da cidade, a baiana agradece ao acarajé que lhe trouxe até aqui e no final de semana, todos se reúnem para um churrasco gaúcho embalado pelo samba do subúrbio. Os cariocas estão rodeados pela vasta gastronomia popular brasileira, enquanto defendem sua famigerada combinação de biscoito de polvilho e mate gelado, experimentam os sabores trazidos de outras regiões do país e chegam até mesmo a adotar alguns.


Da Central do Brasil às areias do Leblon, os hábitos, sabores e cheiros se misturam numa espécie de “carioquismo cosmopolita”. A variedade de sabores está associada ao grande número de migrantes de outros estados que escolheram a capital fluminense como destino. São cerca de 2,5 milhões de pessoas que decidiram tocar suas vidas no estado do Rio de Janeiro — mais de 15% da população — dentre os quais 111 mil são estrangeiros. A cidade, então, concentra uma multiplicidade de brasilidades e histórias, no qual paladares do Norte, Nordeste e Sul se entrelaçam cotidianamente. A comida representa para esses moradores de raízes distantes uma forma de matar a saudade que os afeta.


O Arataca e seus sabores do Norte


GIF: TripAdvisor

Sabor de férias, de encontro com os amigos, de almoço com a família na casa da avó e até mesmo de lar. Um bom prato de comida carrega consigo diversas lembranças e sensações. Para as milhares de pessoas que saíram do Norte do país com o desejo de construir uma nova vida no Rio de Janeiro, um belo prato de Tacacá pode trazer o aconchego de casa e o gostinho de infância. Essa é a missão do restaurante Arataca, localizado em Copacabana, Zona Sul do Rio: resgatar lembranças.


O restaurante especializado em comidas do Pará, por ironia regionalista, foi criado por um mineiro de coração belenense. Ainda como aviário, o senhor Acie Rodrigues, de 85 anos, trabalhava levando peças de carne do Sudeste para Belém. Durante as rotineiras viagens, o mineiro de Belo Horizonte se percebeu apaixonado pela variedade de frutas e castanhas da região e decidiu trazê-las para Copacabana e iniciar seu negócio. Assim, no dia 5 de maio de 1955, nasceu a então sorveteria Arataca. Bacuri, açaí, cupuaçu percorriam 3109 quilômetros até o Rio de Janeiro para virarem os deliciosos “sorvetes da Amazônia”.


Após 5 anos refrescando a calorosa cidade maravilhosa, Acie, decidiu introduzir pratos de refeições paraenses ao cardápio, transformando, gradativamente, a sorveteria em restaurante Arataca. Além do tradicional Pato no Tucupi, Vatapá, Caruru e Costela de Tambaqui, o local também se tornou ponto de venda de produtos alimentícios, de forma que, depois de comer um delicioso prato de maniçoba, o cliente poderia comprar um quilo de biju fresca e fazer sua própria tapioca em casa.


Segundo Sheyla Passos, gerente há 16 anos do Arataca, o destaque do restaurante é pela sua versatilidade. Mesmo com um cardápio chamativo, o que mais vende durante os cinco dias da semana são farinhas, polpa de frutas e camarões secos. Sheyla, também paraense, sorri dizendo que os cariocas não estão acostumados a comer “pratos pesados” durante os dias comuns.


Além de ser um lugar de entretenimento, o Arataca também une gerações. Nathália Mayrink, cliente assídua do restaurante, comenta que conheceu o estabelecimento pela sua avó, a belenense Glória Maryrink. Nathália relembra que desde muito nova a matriarca de sua família fazia questão de ensinar aos filhos e, posteriormente, aos netos como eram os costumes em sua terra natal, “Lembro que quando minha avó Glória ia visitar meus pais em Araruama, ela sempre levava litros de açaí com pipoca e ainda repreendia minha mãe dizendo que eu estava ‘carioca demais’, confessa.


Passados 61 anos de história, o Arataca continua contando e recontando histórias de saudades. Com apenas uma garfada, seus temperos transportam pessoas direto do Rio de Janeiro até o coração do Pará e, assim, o lema que estampa a fachada de sua recepção é seguido com sucesso: comidas que acalmam o estômago e aquecem o coração.


De Recife à Ilha do Governador, a tapioca conquista corações

GIF: Tudo sobre tapioca


Goma de mandioca, uma chapa bem quentinha e os mais criativos recheios possíveis, essa combinação, que ultimamente popularizou bastante por ser “levinha”, e até “fitness”, é a cara da cidade do Recife, no estado de Pernambuco. De alimento regional, a tapioca passou a ser encontrada em restaurantes, feiras e hotéis de todo o país.

São mais de 2300 km que separam a cidade do Recife, daqui do Rio de Janeiro. Esse foi o trajeto percorrido pelas irmãs Viviane e Vanessa Wanderley, de 32 e 34 anos, respectivamente. Se estabeleceram na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio, há nove anos, e nunca pararam em emprego nenhum. “Passava no máximo seis meses em cada serviço, só arranjava emprego longe, passei por muito perrengue para garantir o sustento dos meus, mas não me arrependo de nada”, disse Viviane.


Foi numa tarde de nostalgia e saudades de casa, principalmente do gostinho do Nordeste, que, no ano de 2014, as duas irmãs tiveram a ideia de vender a iguaria na Ilha. Inicialmente, se organizaram numa barraquinha na feira do Cocotá, todo domingo. A tapioca fez sucesso, a feira ainda não contava com nenhum estande de comida pernambucana, e as meninas se fixaram como feirantes.


O dinheiro extra que faturavam aos domingos fazia diferença, e a clientela sugeriu a expansão do negócio. “Sou nordestina, de Aracaju, frequento a feira aos domingos há algum tempo, e, antes das meninas, não tinha nada com a cara do Nordeste por aqui. Depois delas, até um forrózinho rola por aqui de vez em quando e muitos amigos nordestinos passaram a frequentar a feira. Uma tapioquinha com um caldo de cana não se nega a ninguém”, disse Alda Azevedo, aposentada de 73 anos. Já César Filho, carioca de 23 anos, virou cliente fiel com a namorada. “ Eu bato ponto aqui todo domingo, minha namorada me introduziu à tapioca por não engordar, e eu amei. Sempre disse às meninas para abrirem uma tapiocaria”, disse.

Rômulo Monteiro, um dos responsáveis pela organização dos estandes da feira, falou do pioneirismo das duas irmãs. “A comida nordestina não tinha nenhum representante de fato aqui na feira, depois delas, já temos mais uma barraca com comidas típicas nordestinas, como mungunzá, canjica, cocada, e temos uma barraquinha de caldo de cana que também é de um pernambucano”, disse.


Dois anos depois do início do sucesso dos domingos no Cocotá, Viviane decidiu expandir o empreendimento. Comprou um carrinho de cachorro quente que um amigo estava vendendo, e adaptou para a produção de tapiocas. Todo dia útil, pontualmente às 19 horas, as irmãs se revezam no carrinho em frente à um curso de inglês, no Jardim Guanabara. E pretendem expandir o negócio em breve. “Estamos estudando alugar um espacinho aqui na Ilha mesmo e montar uma tapiocaria, pequena, mas que atenda à nossa clientela. Além do dinheiro extra, a gente aqui conhece muita gente, se diverte muito, a Ilha do Governador acolheu muito bem a tapioca das irmãs”, brinca Vanessa.


O tabuleiro da baiana-carioca

GIF: Os Melhores Acarajés do Rio


A fumaça do azeite de dendê já circula junta ao ar, a massa de feijão-fradinho está preparada e a pimenta à disposição do freguês. Um pedacinho da Bahia onde quer que se vá, para a alegria daqueles que deixaram a “terra da felicidade”. A moça enfeitada começa a fritar e o carioca prova e aprova o quitute que a trouxe até aqui: o ilustre acarajé.


Palavra emprestada da língua iorubá, “acará” significa bola de fogo enquanto o “jé” se refere à mais importante parte: comer. De fato, a experiência de provar um acarajé pode fazer pensar que se está provando algo em chamas, se assim desejar. O bolinho, que pode ser servido com pimenta, camarão seco, vatapá e caruru, é unanimidade entre os soteropolitanos. A gastronomia do estado é reconhecida por seus intensos sabores e por sua miscigenação cultural facilitadora de sua expansão Brasil afora.


Fortemente difundido pelo Brasil, não é difícil encontrar o acarajé em outras regiões do país. No Rio de Janeiro, não é diferente, os tabuleiros estão espalhados pelas ruas da cidade. O acarajé da Ciça, uma das bancas mais conhecidas da Cidade Maravilhosa, encanta a clientela com sabor e simpatia.


Cecília de Jesus Nascimento nasceu em uma usina de açúcar em São Sebastião do Passé, região metropolitana de Salvador. Veio ao Rio de Janeiro, assim como tantos outros, para realizar um sonho. O objetivo: trabalhar com o que já dominava, ser baiana de acarajé. No entanto, ao chegar à cidade, começou a trabalhar como cozinheira, função que nem sabia que poderia ocupar. "Eu não sabia que era cozinheira. Era baiana de acarajé.".


Há 17 anos, a baiana que completará seus 60, firmou seu tabuleiro no centro da capital fluminense. Localizada agora na Praça XV, na esquina com a Rua do Mercado, a degustação vai das 16 às 22 horas. Apegada aos cariocas, já nem imagina deixá-los, a fama por aqui já lhe rendeu até mesmo uma candidatura a vereadora.


"A gente está aqui para se ajudar", comenta a sorridente "Ciça do Acarajé". Com seus quitutes às margens da Baía de Guanabara, a baiana ajuda seus conterrâneos a matarem a saudade dos sabores de suas origens. O tempero especial ela revela: "Muito carinho e muito Axé.”.


O prato gaúcho com cara de carioca




As cadeiras se estendem ao longo da calçada. Ao lado a mesa é preenchida por diversos pratos a cada vez que um vizinho chega. As crianças brincam animadas com o samba que ecoa de uma das casas. A tina de gelo com a cerveja já está nos “trinques” e, entre as duas calçadas, a grelha exala aquele cheiro que desperta inúmeras sensações – e a fome- em quem passa: É domingo e o churrasco na está a todo vapor na rua Olga de Cordeiro em Bangu.


Na família de Valdiney de Souza, 40 anos, as comemorações são sempre feitas com churrasco na calçada de casa. “É bom que tem mais espaço, sempre aparece um pra agregar”. Ney, como gosta de ser chamado, já trabalhou pesado em muitos lugares até chegar no Rio e foi só aqui que conheceu o prato de verdade. Se apaixonou. Aprimorou as técnicas nas festas de família e no trabalho, e hoje em dia até faz alguns “trampos” como churrasqueiro. “Não tem coisa mais gostosa que ver os amigos e familiares se reunindo, tomando uma cervejinha, comendo a carne deliciosa que eu fiz e dividindo bons momentos”, afirma.


Está na sabedoria popular que reunir os amigos, assar uma carne e tomar uma cerveja é um hábito cultural típico do carioca. Mas, por incrível que pareça, essa prática surgiu em um lugar um pouco mais frio que no calor do Rio de Janeiro. Foi na região dos pampas, uma extensa área de criação de gado que compreende parte do território do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai, que os vaqueiros conhecidos como gaúchos tornaram o prato famoso. A antiga pecuária exigia a permanência dos homens fora de casa por um longo período de tempo, fazendo com que a carne assada fosse a refeição mais fácil de se preparar, bastando apenas uma estaca de madeira, uma faca afiada, um bom fogo e sal grosso. O tempo passou e a prática foi se perpetuando pelos Estados, até chegar no Rio de Janeiro. Hoje, a carne pode ser acompanhada por diversas coisas, sendo as mais comuns: farofa, salada de maionese e molho vinagrete. Muito mais que um momento de alimentação, o churrasco se transformou numa forma de socialização. Na vida dos cariocas, o churrasco tornou-se quase uma instituição dos finais de semana.


Roberto da Cunha, 54 anos, relembra que na vila onde morava em Vila Isabel havia churrasco quase todo sábado e que sempre foi sinônimo de confraternização entre amigos e família. “Minha mãe fazia uma farofa sensacional e meu pai muitas vezes comandava a grelha. Era muito bacana ver todo mundo junto. Adorava” recorda.


Roberto é daqueles que acredita que comer não é algo que deve ser feito sozinho. “Acho que o churrasco, principalmente, é uma coisa feita para ser consumido em conjunto, sabe? A carne é fatiada em vários pedaços, cada pessoa traz um dos pratos para acompanhar e até o preparo da carne pode ser dividido em etapas. Ele faz com que a contribuição de cada pessoa seja importante para o resultado final”, filosofa. “O ato de comer junto é uma maneira de manter nossos vínculos.”


Transformar a calçada numa extensão do lar é um traço típico, principalmente, da cultura suburbana carioca. Socializar as comemorações e os alimentos também. O churrasco na rua acaba englobando todos esses hábitos particulares do Rio de Janeiro. Assim, é em cenas como a da Rua Olga de Cordeiro que o prato gaúcho vai ganhando, cada vez mais, sua cara de carioca.

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 Editorial

Quase sempre, quem escreve a história são os vencedores e conquistadores, já dizia Nehru, primeiro Primeiro Ministro da Índia. Qual o espaço das periferias e minorias na história do mundo? Quem não está no centro, aqueles que, como diria Machado de Assis, não ganhou as batatas, perece nas margens do tempo.

Mas a cultura popular não só existe, como resiste. Com seus saraus, feiras, comidas e músicas, o povo continua fazendo sua cultura. Em tempos de um senado considerando a criminalização do funk, faz-se muito necessário a recordação e apreciação da história dos marginais, dos heróis ocultos de nossa sociedade. Esta edição da revista digital Janelas do Olhar mergulha em uma atmosfera de resgate e exaltação à memória das expressões de cultura popular, por vezes excluídos do meio hegemônico. 

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