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No compasso da sanfona

  • 11 de jun. de 2017
  • 5 min de leitura

Quando o assunto é cultura musical, parece que nem mesmo a seca é capaz de parar a fertilidade de ritmos populares da região Nordeste. Ainda assim, neste terreno onde brotam frevo, baião, maracatu e axé, uma criação posa imponente como a maior e mais simbólica deste chão: o forró. E é essa a principal trilha sonora a embalar o Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, mais conhecido como a Feira de São Cristóvão.


Estilo eternizado por grandes nomes da música popular brasileira, como Jackson do Pandeiro, Dominguinhos e Luiz Gonzaga, arrasta milhares de pessoas para o mais famoso reduto nordestino em terras cariocas, localizado no bairro de São Cristóvão. Se em suas raízes o gênero era uma música puramente regional formada por zabumba, sanfona e triângulo, hoje o ritmo se modernizou. Foram incorporados elementos do pop, do axé e do tecnobrega, e os shows se tornaram megaproduções, com bandas eletrificadas e espetáculos de luz e pirotecnia.

Pode-se encontrar na Feira de São Cristóvão tanto shows com a formação tradicional, prestando tributos aos grandes clássicos, como apresentações dos grandes nomes da atualidade – Wesley Safadão, Aviões do Forró ou Calcinha Preta. O local conta, também, com atrações fixas aos sábados e domingos, quando se revezam diversas bandas como o Grupo Forró Balança, o Zé da Onça e Sua Gente, e o Trio Xodó.


De fã de Jackson do Pandeiro para famoso na Feira de São Cristóvão


Dentre os mais antigos forrozeiros que fazem parte da programação fixa do lugar, está o cearense José Matias de Lima – o Zé Matias –, de 74 anos. Em entrevista dada ao “Camaléo”, o jornal da feira, Zé conta sobre o encontro que teve com Jackson do Pandeiro ali mesmo, na Feira de São Cristóvão, no início da década de 70. Foi quando ele começou, além de trabalhar como motorista do músico, a ajudar na produção dos shows e até a tocar em algumas ocasiões. Foi Jackson quem inspirou Matias a entrar no mundo da música do qual, desde então, não saiu mais.


"Eu fazia os shows do Jackson aos sábados à noite e, na madrugada, seguia para a feira. Lá eu assistia o sol nascer cantando e tocando. Era ali que eu passava o pandeiro e conseguia alguns trocados no domingo de manhã. E assim consegui ganhar a vida no Rio de Janeiro", conta Matias, que até hoje faz o repertório de seu show focado nas músicas do ídolo.

Já as apresentações de grandes nomes da atualidade, costumam ter datas planejadas com antecedência e esquemas especiais para organizar a estrutura dos shows, que se tornaram verdadeiros megaeventos. Em janeiro de 2016, a apresentação do maior astro do forró atual, Wesley Safadão, fez a feira bater recorde de público, aglomerando cerca de 20 mil pessoas em um único dia.


Quem realmente faz a Feira acontecer

Nem só de famosos vive o pavilhão. São as apresentações menores e mais próximas ao público, como a da banda Trio Taperoá - parte da programação permanente do lugar -, que mantém a Feira sempre movimentada. No domingo do dia das mães, o grupo se apresentou em um pequeno palco improvisado na praça Câmara Cascudo. O público, majoritariamente composto de idosos, acompanhava com gosto o ritmo do trio. Não havia cansaço que tirasse os visitantes da pista. A cena que se desenrola é a mesma que habita o imaginário de milhões de brasileiros quando o assunto é forró: aquele pequeno ambiente da Feira se transformou em um pedaço do interior nordestino, onde os sorrisos são amigáveis e os corpos, leves.


Cabelos loiros coberto por chapéu cowboy florido, rosto maquiado, grandes cílios postiços, de corselete preto, saia babado e bota cano alto, a musa do resgate do brega é outro destaque da Feira de São Cristóvão. Claudete Alves, naturalizada em Pedreiras, Maranhão, mora no Rio de Janeiro há trinta anos. Há dois, foi empossada do título, tornando-se artista. Ao lado da sua banda e com a realização de shows em Fortaleza, João Pessoa, Campina Grande, ela pretende novamente viajar para divulgar o recém DVD lançado.


"Era um sonho a ser realizado. O empresário queria muito concluir a gravação do DVD em parceria com a banda Desejo proibido aqui na Feira de São Cristóvão", comenta a musa da banda sobre recém DVD lançado. Feira agitada, público garantido e comerciante satisfeito

Toda essa programação atrai um público fiel que, além de prestigiar a comida e o ambiente único, tem na música o principal atrativo do reduto nordestino. Uma dessas frequentadoras assíduas é a aposentada Maria de Fátima Lopes Teixeira, de 68 anos. Dançarina de salão, a carioca vai atrás de um bom arrasta-pé, gosta dos shows e, às vezes, até se arrisca a ser um dos pares no palco: "vem muito homem aqui no forró que costuma tirar a dama pra dançar. Às vezes a gente até faz amizade assim", conta Maria, que considera o período de maio e junho a melhor época para visitar a Feira de São Cristóvão. "Isso aqui ferve por causa da festa de São João. Comidas típicas, músicas típicas... durante o ano todo tem, mas nessa época tem mais."


E não é só a plateia que se alegra com a movimentação que o forró atrai para o lugar. O comércio local, com diversos restaurantes e lojas de artesanatos, vibra com os bons negócios e a celebração da cultura regional.


Alex Araújo, de 42 anos é um desses comerciantes. Largou tudo na Paraíba e chegou ao Rio em 1983. Há 34 anos, trabalha na feira. Uma tia veio na frente, e depois o pai, Luís Araújo Monteiro, de 68 anos. Arrumou um emprego, alugou uma casa e trouxe a família. "Eu cheguei aqui com sete anos, um ano depois estávamos trabalhando na feira. Eu era tão pequeno, fui criado embaixo no tabuleiro", conta o feirante. Na loja de Alex, doces em compota, goma de tapioca, queijo, rapadura. A comida é boa, mas o trabalho é duro: de terça a quinta, das 10h às 17h, e de sexta a domingo, de 10h a 20h.


"O nosso público não é tão grande, mas é fiel. Antigamente, o público era majoritariamente do Nordeste, hoje, com a transformação do campo de São Cristóvão em ponto turístico, a coisa mudou. Foi feita uma pesquisa pelo SEBRAE que mostrou que 70% do nosso público, agora, é carioca", conta.


Para Alex, que não pensa em voltar para o Nordeste, a feira é uma forma de sustento, mas também de preservação da identidade nordestina. "Falta um pouco de apoio cultural. Manter a feira é uma forma de manter a nossa essência, nós que somos nordestinos mesmo. Se não cuidar dessa cultura, acaba virando uma feira qualquer, como qualquer outra", afirma o paraibano.


Apesar de todas as dificuldades, o local brilha pelo som, pelo cheiro, pelo gosto e, principalmente, pela animação que não acaba. Nas praças e nos palcos, o público, nordestino de sangue ou de coração, dança ao som do forró em arrasta-pés que viram noites e dobram dias. É um lembrete de que, pelo menos enquanto existir a Feira de São Cristóvão, a cultura nordestina não tem hora para acabar.



 
 
 

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 Editorial

Quase sempre, quem escreve a história são os vencedores e conquistadores, já dizia Nehru, primeiro Primeiro Ministro da Índia. Qual o espaço das periferias e minorias na história do mundo? Quem não está no centro, aqueles que, como diria Machado de Assis, não ganhou as batatas, perece nas margens do tempo.

Mas a cultura popular não só existe, como resiste. Com seus saraus, feiras, comidas e músicas, o povo continua fazendo sua cultura. Em tempos de um senado considerando a criminalização do funk, faz-se muito necessário a recordação e apreciação da história dos marginais, dos heróis ocultos de nossa sociedade. Esta edição da revista digital Janelas do Olhar mergulha em uma atmosfera de resgate e exaltação à memória das expressões de cultura popular, por vezes excluídos do meio hegemônico. 

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