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Sagrado & Profano - uma experiência de história, cultura e fé

  • 10 de jun. de 2017
  • 8 min de leitura

O céu molha o chão de histórias da Lapa, berço da diversidade cultural carioca, e abençoa os que pedem passagem. A roda pede licença aos donos da casa, primeiro a oração, depois a brincadeira. O sagrado e o profano evocam a ancestralidade para a festa. É assim todas as últimas quintas do mês nas rodas de coco e jongo, que acontecem nos Arcos da Lapa. Na semana nacional dos povos indígenas, a roda de coco é especial sobre o tema. Jurema, caboclo, cocar, pássaros e a natureza são cantados pelo Zanzar, que completa 12 anos. O grupo surgiu em 2005, pelo desejo da dançarina Lais Bernardes de difundir o ritmo e a dança pela cidade do Rio de Janeiro.


“Quando a gente fala de cultura popular no Brasil, a gente não tem como se dissociar do nosso processo histórico de muita violência e também de muita resistência. Quando a gente fala do coco, que é muito forte no nordeste e que está se recriando em outros lugares, a gente fala muito sobre uma manifestação indígena.”, afirma João Vinícius, 32, psicólogo e brincante.


O grupo Zanzar realiza rodas na Lapa desde 2005 | Foto: Rui Zilnet


O coco conquistou a Lapa. Além dos apaixonados e frequentadores da roda, transeuntes, moradores em situação de rua e ambulantes se embalam na musicalidade da alfaia, do ganzá, do chocalho, do triângulo e do atabaque; instrumentos que dão o tom animado da manifestação cultural. Localizada debaixo dos Arcos, a festa não passa despercebida pelo olhar dos curiosos.

É o caso de Micaela Marques, baiana da comunidade quilombola “Lapinha”, reconhecida em 2009 pela FUNAI, que lembrou de sua infância. “Me lembrou músicas que minha avó cantava na infância. Eu parei aqui por isso, nem conhecia a roda, nem sabia que se chamava coco”, declarou. Para a jovem, a ocupação dos espaços públicos com a cultura negra é importante para o “reconhecimento de todos os povos”.


A brincadeira também mobiliza pessoas de outros cantos do Brasil. O mineiro Lucas Peres relembra: “Quando eu morava aqui, vinha sempre pra brincar um pouco”. O jovem pernambucano Natan Gomes, que mora na cidade do Rio, explica a sua paixão: “Na minha cidade o coco era muito forte, então eu gosto de participar aqui no Rio também”, finalizou.

Contagem regressiva, fim da roda. Após o Zanzar, ocupa o espaço o Jongo da Lapa. Assim como no coco, a reverência à ancestralidade é o primeiro ato desse movimento. Neste grupo, além das origens do jongo, há uma outra figura a ser celebrada: Mestre Darcy.


Um dos criadores do Jongo da Serrinha, de Madureira, Darcy também foi um dos fundadores da escola de samba Império Serrano e teve uma trajetória estrelada que o levou a contracenar com grandes nomes da música brasileira na Rádio Nacional. Trabalhou como como coreógrafo no Cassino da Urca e realizou diversas apresentações no exterior. Defensor da cultura negra, Darcy criou o grêmio recreativo Quilombo junto de nomes como Candeia e Wilson Moreira. Passou os últimos anos de sua vida ensinando o jongo a estudantes de escolas e universidades. Faleceu em 2001, deixando um enorme legado cultural.

Levar o jongo para a Lapa é a responsabilidade do grupo que, desde 2004, cultua os ensinamentos de Mestre Darcy nos Arcos que formam o famoso cartão postal do bairro. No início, não havia uma organização exata, tudo começou como um encontro de pessoas e, com o passar do tempo, foi ganhando estrutura e rotina.


Para Taís de Almeida Costa, uma das integrantes do grupo, o fato de a roda ocorrer à céu aberto cumpre com um papel fundamental na divulgação da cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro. “Quando você fala de jongo, as pessoas conhecem, mas pensam que é algo que você tem que ir lá na Serrinha para assistir. Não é algo tão simples. Aqui não, é um lugar de passagem. A gente deixa um gostinho na boca das pessoas e a partir daí elas passam a pesquisar, conhecer mais. Muitas pessoas vieram a primeira vez, conheceram, gostaram e tornaram-se assíduas”, revela.

A missão de reverenciar o saudoso Mestre Darcy é encarada com tranquilidade pelos membros da roda. Segundo Taís Agbara, como é chamada dentro do Jongo, a própria escolha da Lapa é uma maneira de homenageá-lo. “O Darcy já fazia um trabalho em Santa Teresa e frequentava muito a Lapa. É um bairro importante para a gente. Ainda na década de 1990, houve um encontro de jongo na Fundição Progresso. É um espaço bastante representativo”, pontuou.


Os tambores saúdam os ancestrais por noite adentro. Os passos e os pontos tradicionais atraem os transeuntes da noite fria e chuvosa na Lapa, esquentando os corações daqueles que buscam suas raízes em uma grande manifestação cultural, que une afeto e musicalidade.


“Tambor não combina com água, vamos continuar enquanto for bom”, falou um dos jongueiros que, apesar da chuva insistente, resistem e continuam a roda.


O respeito aos antigos é ponto de partida. Taís resume a relação do Jongo da Lapa com o tradicional Jongo da Serrinha como de admiração, evitando maiores comparações. “O jongo que se pratica aqui não é o mesmo da Serrinha, mas tem uma inspiração, uma semelhança. A gente já assumiu uma identidade própria, nos passos, nos toques”, conclui. Semelhante ou não, o fato é que o Jongo da Lapa dá a oportunidade a muitos de conhecerem um patrimônio cultural imaterial da cidade.


É na rua, atraindo a curiosidade dos que apenas seguem seu caminho de volta para casa, que o jongo e o coco ganham vida e emprestam alegria e cultura ao coração do Rio de Janeiro.


A História das rodas


A saia estampada gira incessantemente, formando um catavento colorido. Os pés batem firmes no chão, compassados com tantos outros pés que pisam forte. O corpo gira, cumprimenta, saúda todos os presentes. Atabaque, ganzá, tambor, pandeiro e cuíca se misturam e se entrelaçam, assim como as diferentes danças populares que compõem o imaginário popular brasileiro. Os passos, ensaiados e espontâneos, ajudam a criar um cenário que remete ao resgate da herança de antepassados.


A influência de povos africanos, como o bantu, foi fundamental para a formação dessas danças. Através do jongo, dança de cocos e tantas outras, negros escravizados e gerações que vieram após encontraram uma forma de festejar e resgatar sua ancestralidade, que por tantas vezes foi violada durante o período escravocrata.


Dança de cocos


Com origem controversa, a dança de cocos surgiu na região Nordeste do país e hoje em dia vive uma metamorfose constante, com elementos sendo transformados, enquanto outros são resgatados. O passo característico, junto com o bater de cocos, ainda está presente em boa parte das rodas, como forma da manifestação se conectar as gerações criadoras do movimento e também de resistir.


Na ‘cidade maravilhosa’, grupos como o “Coconomã” realizam a ocupação de espaços públicos e disseminam a cultura nordestina do coco para quem estiver presente. A exploração de espaços lotados - seja de curiosos, seja de transeuntes - é essencial para despertar a curiosidade de quem ainda não conhece o movimento. E, assim, a dança de coco se eterniza e resiste, sendo fomentada por quem faz parte de grupos que a incentivam, mas também por quem assiste as rodas e busca se informar sobre o tema.


Jongo


Já o jongo, nascido no Vale do Paraíba e advindo diretamente dos negros africanos, na época de seu surgimento era uma dança de ‘preto velho’ e, por tradição, os mais jovens apenas observavam. Nos dias de hoje, na intenção de eternizá-lo, está mais plural e contempla todas as idades, entretanto, os mais velhos permanecem sendo a maior referência.

Encerramento da roda de coco do grupo Zanzar | Vídeo: Marcos Marinho


No Rio de Janeiro, o bairro de Madureira foi uma região que centralizou ainda no século XIX a prática desse tipo de roda. A ex-escrava Maria Teresa dos Santos foi uma das precursoras que implantou o jongo nessa parte da cidade. Mano Elói, Tia Eulália e Sebastião Mulequinho também compunham o conjunto de pessoas que auxiliaram na disseminação da atividade. Todos amplamente envolvidos com a cultura local, também foram responsáveis pela fundação da tradicional escola de samba Império Serrano.


O samba, por sinal, foi fortemente influenciado pelo próprio jongo. Sambistas, fundadores de agremiações, membros da velha guarda e diversas outras figuras ligadas a esse ritmo, apreciavam a dança e a musicalidade com origem africana. Nas vielas das favelas e no alto do morro, o jongo era sempre bem vindo e muito disseminado. Muitos jongueiros também eram sambistas e, dessa forma, houve a importação de muitos elementos de um ritmo para outro. Os versos improvisados nos cantos, a ‘umbigada’ na hora de dançar, o instrumento ‘mpwita’: todos foram adaptados para o samba, se transformando em versos de partido alto, no jeito de sambar e na cuíca.


Apresentação do Jongo da Serrinha no Teatro Carlos Gomes, 2005 | Foto: Acervo Jongo da Serrinha


Nos anos 70, Mestre Darcy Do Império estava preocupado com a grande quantidade de velhos jongueiros que estavam morrendo. Temendo pela extinção, se reuniu com sua mãe, a rezadeira Maria Joana Monteiro, e com tantas outras mulheres importantes, como Djanira, Tia Eulália, Tia Maria da Grota e a própria Maria Teresa dos Santos (popularmente conhecida como Vovó Teresa). Formava-se assim, o grupo artístico Jongo da Serrinha, com o intuito de difundir o jongo em outros ambientes, criar grupos de estudo e atingir uma projeção mais ampla.


Hoje em dia, o Jongo da Serrinha abriga diferentes eventos culturais, sempre permeando seus objetivos de décadas atrás. Em 2005, o gênero foi tombado como o primeiro bem imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Desde então, segue na luta pela sobrevivência e constante popularização do jongo. Sua existência, mesmo tantos anos após o surgimento, representa a resistência dos povos que corajosamente deram os primeiros passos e formaram as rodas. A luta diária enfrentada é para que essa herança cultural não seja ignorada ou esquecida.


O boom das rodas


Nos últimos anos, uma efervescência da cultura popular cresceu na cidade. Diversas iniciativas como o Tambor de Cumba e o Coconomã, realizam atividades de rodas de coco e jongo desde 2013, são expressões desse novo movimento.


Eles se somam aos já tradicionais Jongo da Serrinha, desde os anos 1960 em Madureira, Jongo da Lapa e Zanzar, ambos surgidos em meados dos anos 2000, na Lapa.


A Companhia de Aruanda, formado por jovens de regiões como zona norte, zona oeste e baixada fluminense, tem por objetivo a divulgação e preservação de danças tradicionais da cultura popular brasileira com foco no subúrbio carioca. Em parceira com a União Jongueira da Serrinha, o grupo promove o Fuzuê D’Aruanda, roda de danças populares que acontece toda terceira quinta-feira do mês às 20h embaixo do viaduto Negrão de Lima, em Madureira.


Todo primeiro sábado do mês ao circular pela tradicional feira de antiguidades da rua do Lavradio no centro do Rio, é possível ouvir os batuques e ver as saias de chita coloridas rodando na esquina entre a Rua do Lavradio e a Avenida República do Chile. É a roda do Dandalua, grupo de coco e jongo que, criado em 2010, oferece oficinas de danças e músicas para o público e desde 2014 tem a feira como seu palco, a partir das 14h.


O Tambor de Cumba foi criado em 2011 como um grupo de estudos com o objetivo de promover as tradições culturais de matriz africana utilizando a representação da cultura negra como instrumento de empoderamento. Desde 2013, o grupo realiza o “Tambor no Valongo”, na região portuária, uma roda de danças populares com jongo, coco e maracatu que acontece todo terceiro sábado do mês no Cais do Valongo às 16h.


O mais recente de todos os grupos é o Coconomã, que com apenas quatro anos de atividade realiza uma roda de coco mensalmente no centro do Rio, em geral, na Praça XV e promove eventos em parceria com diversas outras rodas de danças populares da região metropolitana como o Dandalua, Maracatumba e o samba de coco de São Gonçalo.


Jongo da Serrinha

Onde: Morro da Serrinha, em Madureira

Quando: Apresentações agendadas e divulgadas sem periodicidade fixa

https://facebook.com/serrinhajongo/


Grupo Zanzar (jongo e coco)

Onde: Arcos da Lapa

Quando: última quinta-feira do mês às 20h

https://facebook.com/grupozanzar/


Movimento Cultural Jongo da Lapa

Onde: Arcos da Lapa

Quando: última quinta-feira do mês às 22h

https://facebook.com/jongolapa/


Dandalua (jongo e coco)

Onde: Feira do Lavradio

Quando: primeiro sábado do mês às 14h

https://facebook.com/GrupoDandalua/


Fuzuê D’Aruanda (coco, jongo, maracatu)

Onde: Viaduto Negrão de Lima, Madureira

Quando: terceira quinta-feira do mês às 20h

https://facebook.com/Ciadearuanda/


Grupo Tambor de Cumba (jongo, coco, maracatu)

Onde: Cais do Valongo

Quando: terceiro sábado do mês às 16h

https://facebook.com/cumbadetambor/


Coconomã (coco)

Onde: Centro do Rio, Praça XV

Quando: uma vez por mês em data divulgada pelo grupo

https://facebook.com/rodacoconoma/


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 Editorial

Quase sempre, quem escreve a história são os vencedores e conquistadores, já dizia Nehru, primeiro Primeiro Ministro da Índia. Qual o espaço das periferias e minorias na história do mundo? Quem não está no centro, aqueles que, como diria Machado de Assis, não ganhou as batatas, perece nas margens do tempo.

Mas a cultura popular não só existe, como resiste. Com seus saraus, feiras, comidas e músicas, o povo continua fazendo sua cultura. Em tempos de um senado considerando a criminalização do funk, faz-se muito necessário a recordação e apreciação da história dos marginais, dos heróis ocultos de nossa sociedade. Esta edição da revista digital Janelas do Olhar mergulha em uma atmosfera de resgate e exaltação à memória das expressões de cultura popular, por vezes excluídos do meio hegemônico. 

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