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Saraus ocupam o espaço público com poesia em Nova Iguaçu

  • 11 de jun. de 2017
  • 9 min de leitura

Um grande compositor, Silas Oliveira, disse: "Jamais pensei em minha vida/ Sentir tamanha emoção/ Será que o amor por ironia/ Move esta fantasia, vestida de obsessão/ A ti confesso que me apaixonei/ Será uma maldição?/ Não sei" E talvez essa tal “Senhora Tentação” seja uma mulher, um bom emprego, dinheiro, ou, quem sabe, a poesia. Quando cerca de 10 amigos se reúnem na varanda da Biblioteca Cial Britto, em uma noite de terça, após diversas atividades, esse amor pela arte escrita em versos ganha corpo. Em cada palavra recitada com a emoção do poeta que se inspira em A Persistência da Memória, de Salvador Dalí, ou na violência que assola ruas da periferia e mata os jovens negros. A energia que move o amor se reforça no Sarau Urbano, Rua Getúlio Vargas, 51, Nova Iguaçu.


Obras de autores da Baixada Fluminense ficam expostas na entrada da biblioteca. Foto: Daniella Vianna

O local é pequeno, poucas cadeiras já enchem o espaço. Localizado na Casa de Cultura de Nova Iguaçu, a Biblioteca Cial Britto valoriza sua região. O escritor que dá nome a biblioteca não nasceu em Nova Iguaçu, mas foi ali onde firmou raízes e construiu um legado para muitos dos próximos escritores de uma região que por vezes só é lembrada pela violência e distancia. Britto foi membro da Arcádia Iguaçuana de Letras e contribuiu para a valorização do artista iguaçuano. Uma estante dedicada aos importantes escritores da Baixada Fluminense ocupa o interior do espaço. De Lirian Tabosa, que no auge dos seus 83 anos produz reflexões políticas, a Moduan Matus, precursor na produção de saraus na área.


Dois séculos atrás, Dom João importou o sarau para o Brasil. Evento nobre e frequentado pela alta sociedade, o encontro entretia intelectuais com poetas e músicos notáveis, além de vinho e champanhe. O futuro rei carecia de diversão à sua altura, por isso, os saraus seguiam o padrão francês, com muita pompa. Artistas anônimos ficavam à espreita, buscando chances de se apresentar e, com sorte, encontrar um mecenas que financiasse seu trabalho.


Do Rio de Janeiro, onde a corte se instaurara, os saraus chegaram a São Paulo graças ao desejo da burguesia de alcançar status de nobreza. Em 1850, os encontros artísticos já estavam presentes em todas as capitais. Desde então, se consagraram como celeiro de potências artísticas. Os modernistas Mário de Andrade e Manuel Bandeira, por exemplo, frequentaram o sarau do senador e mecenas Freitas Vale. O próprio Mário veio a organizar um sarau, assim como Tarsila do Amaral e tantos outros.


Hoje, os encontros não precisam de salões renascentistas, pianos de cauda ou trajes de gala. Eles são produzidos e organizados por pessoas que querem promover arte, principalmente a literatura poética, e levá-la para todos os cantos. Roberta Miranda, 39, realiza esse trabalho há um ano e meio. Ela trabalha em parceria com a Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu, produzindo o Sarau Urbano com apoio da Biblioteca Cial Brito. “Peguei ele para produzir no intuito de que os alunos que estudam na biblioteca participem do movimento literário, tenham mais acesso às questões artísticas e também dar uma movimentação maior à biblioteca”, explica Roberta. Seu plano é que o público interaja com o exterior do prédio tanto quanto com o interior. Segundo a organizadora, “o sarau literário é para a galera da biblioteca, mas também para o pessoal que vêm de fora conhecer os autores iguaçuanos”.

Roberta Gomes Miranda, oraganizadora do Sarau Urbano Cial Britto. Foto: Sarau RUA

O tema da 15ª edição, que aconteceu no dia 23 de maio, foi o samba, ritmo que recentemente perdeu o mestre Almir Guineto e vê com preocupação o estado de saúde de Arlindo Cruz. Para essa homenagem, a música ficou por conta de Mano Décio do Cavaquinho, experiente musicista que já tocou com importantes nomes do ritmo centenário. A biblioteca já havia realizado saraus antes, mas o projeto estava parado e voltou a ser produzido por iniciativa de Roberta. Hoje, a média do público é de 60 pessoas, entre artistas e plateia, número considerado bom para uma terça-feira.


Ainda que Miranda conte com a assistência do poder público, seu maior desafio é estrutural. Ela acredita que a percepção geral é que, por estar trabalhando dentro da Casa de cultura, as pessoas acham que há um estrutura disponível para atender suas necessidades – o que não é verdade. “Às vezes acontece de termos problema como microfone, caixa de som. Às vezes, como hoje, tem peça no teatro, aí não posso mexer no material que está lá”,

desabafa.


Na opinião de Elisabeth Gomes, 23, o evento “é uma iniciativa maravilhosa, por ser de uma biblioteca, especificamente; você tira a biblioteca dessa coisa do silêncio, do fiquem quietos, e bota o pessoal para absorver outras formas de conteúdo, de cultura.”. Quando perguntada sobre o apoio que a Secretaria lhe oferecia - seu sarau também tem apoio da Casa de Cultura de Nova Iguaçu – a jovem vacilou por um instante, pensando de que maneira deveria responder. Assim como acontece com o Sarau Urbano, o apoio se limita ao espaço e ao equipamento emprestado, o que já é um progresso em relação a sua experiência anterior, com a prefeitura de Nilópolis. “Cineclubes da cidade me ajudaram, a Pirão Discos me ajudou – teve caso de eu ligar para o Marcelo Peregrino, que mora em Valverde, e ele levar a caixa de som para mim nas costas, lá na Praça dos Estudantes, em Nilópolis.” Roberta Miranda

revela que o apoio midiático também é valioso, pois os eventos são divulgados nas redes sociais da prefeitura, levando a informação para grande parte da população. No entanto, a falta de uma verba específica para os saraus é um problema: “não tem um café, um lanche para galera do sarau, ultimamente.” Eles também dependem da amizade com os poetas para ter convidados homenageados, já que não podem pagá-los pela presença.


Elizabeth reconhece a importância da participação do poder público. Para a poetisa, “uma população que tem uma identidade mnemônica, afetiva, que tem esse desenvolvimento... isso tem que partir do poder público, não tem jeito. Não é a Beth que vai fazer isso. Eu só posso estar fazendo isso por estar numa posição, hoje, dentro do poder público”. Atualmente, ela organiza os saraus RUA e Fulanas de Tal, que faz um recorte de gênero. O poeta Júnior da Prata fala com orgulho da jovem. “A Elisabeth é minha estrela. Apesar de ser uma menina, novinha para caramba, ela é fora de série. Ela que me deu aquele empurrão para participar do sarau. Depois até fiz um poema para ela”, conta, orgulhoso.

Música e dança no Sarau RUA. Foto: Sarau RUA

A Baixada Fluminense é parte fundamental do trabalho dos poetas frequentadores do Sarau Urbano Cial Britto. Segundo relato emocionado de Elizabeth, "ser poeta da Baixada, na Baixada, requer muita fé. Muita fé no território, muita fé nas pessoas que te cercam. Especialmente, muita fé no seu público". Além de ser poeta e organizadora do Sarau RUA e do Fulanas De Tal, Elizabeth Gomes trabalha no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com um projeto ensina crianças a amar a cidade.


Fundamental na história da poesia iguaçuana é o grupo do qual o poeta Henrique Souza, 53, fez parte. Criado há 25 anos e liderado pelo poeta Moduan de Matus, o Desmaio Públiko espalhava versos pelas ruas da cidade através de fanzines (mistura dos termos fã e magazine para nomear a publicação independente). A cada edição cerca de 100 exemplares eram distribuídos. O projeto ganhou destaque especial por levar a poesia marginal aos lugares mais comuns, como portas de lojas.


Dos mesmos lugares comuns e diversos onde o Desmaio Públiko se manifestava pode vir a inspiração de um poeta. Para Henrique Souza, "o que inspira é o sentimento que vem do inusitado". Junior da Prata, 52, comenta emocionado que a inspiração vem de sua mãe. Já a

dor de Elizabeth é o que a move em suas experiências na poesia. "O poeta precisa se forçar a escrever, mesmo que não seja bom", diz. "Dom não é tudo." Escolhido para lançar dois livros na noite de terça, Luiz Otávio Oliani afirma: "Tudo pode mover o escritor a produzir a sua literatura"


Quem poucas vezes perdeu uma edição do Sarau Urbano foi Junior da Prata, 52. O poeta foi homenageado em setembro de 2015. A partir da data, passou a frequentar vários outros saraus e começou a organizar o próprio, o sarau Prata, Prosa e Poesia.


Professor, artista, curador e crítico, Ricardo Basbaum cunhou, em 2005, o termo "artista-etc". No texto, intitulado "Amo os artistas-etc", ele adverte: "Quando um artista é artista em tempo integral, nós o chamaremos de 'artista-artista'; quando o artista questiona a natureza e a função de seu papel como artista, escreveremos 'artista-etc'; (de modo que poderemos imaginar diversas categorias: artista-curador, artista-escritor, artista-ativista, artista-produtor, artista-agenciador, artista-teórico, artista-terapeuta, artista-professor, artista-químico, etc)".


Junior da Prata, Luiz Otávio Oliani e Henrique de Souza, além das mulheres citadas anteriormente, são todos artista-etc. Mais especificamente, poeta-produtor, poeta-professor de português e poeta-professor de sociologia. Exercem uma profissão, assinada na carteira de trabalho, e fazem arte.


Filho de poeta, a família de Da Prata conta ainda com o irmão, o sobrinho e a filha seguindo a mesma vertente literária. Seu segundo nome foi adotado graças ao bairro onde vive, o Bairro da Prata, local onde está tentando montar um Centro Cultural. “Tenho um sarau chamado Prata, Prosa e Poesia e estou tentando montar um pequeno centro cultural no meu bairro. Correndo atrás do vereador que foi eleito lá, do presidente da Câmara, que é conhecido nosso.”


Henrique de Souza é formado em Ciências Sociais pela UFRJ, professor de sociologia e Filosofia da rede pública Estadual e artista: além da poesia, é autor de uma instalação chamada "Cortina dos sentidos". Hoje a instalação não está exposta. Em um capítulo, também chamado Cortina dos Sentidos, de “Encantos do ser”, de sua autoria: “Como você pode descrever um poema se não for capturado através de algum sentido? Eu brinquei com isso. Fiz uma instalação, para a qual foi montada uma estrutura com cinco compartimentos, cada um versando sobre um sentido. Cada um com poesias e estímulos sensoriais que remetiam a um dos sentidos.” Para o estímulo auditivo, ele usou um vídeo com poesia sendo recitada através da linguagem de libras. No compartimento da visão, colocou uma poesia em braile. Henrique está buscando apoio financeiro para continuar realizando projetos sensoriais e interativos como este.


O professor de Língua Portuguesa e poeta, Luiz Otavio Oliani, 40, embora não seja morador da Baixada, frequenta Nova Iguaçu e Nilópolis a trabalho e para o lazer. Entre os eventos culturais de poesia, ele cita “O Poeta Saia da Gaveta”, realizado no Meier, na Casa do Bacalhau toda segunda terça feira do mês.


Na 15ª edição do Sarau Urbano, Oliani lançava dois livros: “A persistência da memória” e “A vertigem das horas”. O poeta defende a importância de encontros artísticos como os saraus literários. Além do RUA e do Urbano, ele frequenta saraus no Méier, na Barra de Tijuca e em Copacabana. “A participação nos saraus é essencial para a formação não só de um público, como também na divulgação de uma obra literária.”


É Henrique de Souza quem resume em uma frase a função social do evento: "Sarau é um momento de troca". Para ele, os encontros são um incentivo à escrita. “A visibilidade fez com que a pessoas se descobrissem como poeta, porque a arte de escrever é uma coisa que as pessoas não descobrem, muitas vezes, por falta de incentivo. O Desmaio Público, por exemplo, foi um incentivo para muitos”, completa. O fanzine tornou Henrique reconhecido na cena, ajudando a popularizar seu trabalho.


Oliani e Da Prata concordam. Para o primeiro, além de se expor ao público, o contato com poetas novos e poetas consagrados ajuda a aprimorar o ofício e arejar as ideias. “É importante conhecer outras pessoas, trocar experiências, trocar livros, doar, autografar, ver o que os outros estão escrevendo, isso é muito importante”, diz. Para o segundo, os saraus são uma ferramenta importante para disseminação dos poemas na cultura popular. Elisabeth Gomes define o sarau como oportunidade de exercitar sua obra, o que considera essencial.


Junior da Prata fala sobre um dia especial, quando conheceu ao acaso seu autor favorito no Sarau Urbano. “Eu sou fanático pelo Luiz Coelho Medina, ele sempre foi o meu 'cara'. Apesar do Moduan Matus ser o precursor de tudo, eu admirava o Medina. Na época do meu primeiro sarau, eu lembro, meu sobrinho me ajudou a fazer uns 30 livrinhos, colando em casa, para distribuir aqui. Aí, tava rolando o evento, eu tava sentado com minha esposa, quando chegou um senhor e falou: ‘pô, soube que você distribuiu uns livrinhos, não guardou um para mim?’” Ele pegou o livro e deu ao homem, sem perceber de quem se tratava. “Aí, ele pegou, começou a ler e disse ‘já que você me deu o teu livro, nada mais justo que eu te dar o meu livro’.” Da Prata, com suas “pernas bambas” não pôde acreditar ao ler o nome impresso na capa.


Ele nunca tinha ido a um sarau até ser homenageado por um dois anos atrás – até medo do microfone sentiu. Desde então, perdeu poucas edições em Nova Iguaçu. A assiduidade foi essencial para criar redes de relação, às quais Elizabeth Gomes se refere como “redes de afeto da cultura”.


Para o dia 20 de junho, quando acontecerá a próxima edição do Sarau Urbano Cial Britto, Roberta Miranda ainda não fechou um tema. No processo de escolha, ela se reúne com a equipe da biblioteca para avaliar a melhor opção. “Estava pensando em fazer uma edição de literatura fantástica, mas não terminou a campanha do RPG (role-playing game) aqui na biblioteca”, confessa. Como não gosta de deixar nenhuma veia artístico-cultural de fora, Roberta está aberta a ideias e atenta às manifestações atuais. Mais importante que tomar as decisões sobre seu sarau sozinha, é resistir e garantir espaço para a cultura iguaçuana.

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 Editorial

Quase sempre, quem escreve a história são os vencedores e conquistadores, já dizia Nehru, primeiro Primeiro Ministro da Índia. Qual o espaço das periferias e minorias na história do mundo? Quem não está no centro, aqueles que, como diria Machado de Assis, não ganhou as batatas, perece nas margens do tempo.

Mas a cultura popular não só existe, como resiste. Com seus saraus, feiras, comidas e músicas, o povo continua fazendo sua cultura. Em tempos de um senado considerando a criminalização do funk, faz-se muito necessário a recordação e apreciação da história dos marginais, dos heróis ocultos de nossa sociedade. Esta edição da revista digital Janelas do Olhar mergulha em uma atmosfera de resgate e exaltação à memória das expressões de cultura popular, por vezes excluídos do meio hegemônico. 

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