Entre memórias e identidades: um legado que resiste
- 11 de jun. de 2017
- 10 min de leitura

A chuva ameaça, mas não consegue estragar os planos de Maria de Albuquerque na manhã deste primeiro sábado de maio. Ela e seu marido embarcam na linha 1 do metrô na estação Uruguai por volta das 9h, descem na Cinelândia cerca de meia hora depois e caminham rumo aos Arcos da Lapa. Um pouco adiante, na Rua do Lavradio, alguns feirantes ainda montam suas barracas, mas a maioria dá os toques finais em seus tabuleiros. A chuva não chega a cair – apenas uma garoa fina intermitente, que logo se dissipa, permitindo que os expositores retirem os plásticos que cobrem suas peças. Está aberta mais uma edição da Feira do Rio Antigo.
Assim como fazem todo primeiro fim de semana de cada mês, alguns dos moradores aproveitam para passear com seus cachorros, antes que os turistas, habitués, colecionadores e curiosos comecem a circular entre os casarões desta que foi a primeira rua residencial do Rio de Janeiro.
Mais popularmente conhecida como Feira do Lavradio, o evento começou a ser realizado em 1996 por meio de uma iniciativa de comerciantes da região associados à ACCRA (Associação dos Comerciantes do Centro do Rio Antigo) e do apoio incondicional do então Subprefeito do Centro, Augusto Ivan de Freitas Pinheiro. As primeiras edições contaram apenas com os antiquários, restaurantes e bares da própria rua e das vizinhas Av. Mem de Sá e ruas do Senado e Gomes Freire, além de algumas apresentações musicais. Mas os participantes logo viram a feira se expandir com a chegada de artesãos e o crescimento no número de artistas e músicos que ali atuam, principalmente no trecho mais próximo à Av. Visconde do Rio Branco. Atualmente, a Associação Polo Novo Rio Antigo estima em cerca de 400 o número de expositores associados, com um público médio de 20 a 25 mil visitantes.
Com o tempo, a feira foi sendo segmentada em alguns nichos. A divisão não é categórica, mas em linhas gerais pode ser descrita assim: partindo da Av. Mem de Sá, o primeiro quarteirão e boa parte do segundo são ocupados por antiquários e expositores de antiguidades. Um pouco adiante, começamos a encontrar sebos, quinquilharias diversas e barracas de artesanato. Algumas dessas expõem as criações dos próprios feirantes, enquanto outras são de comerciantes que trazem os seus produtos de comunidades tradicionais ou de pequenas cidades do interior.

As manifestações culturais começam a aparecer na esquina da Av. República do Chile, com o movimento, batuque e berimbau da roda do Grupo de Capoeira Angola Aluandê, do contramestre Célio Gomes. Já as atrações musicais se concentram na vizinhança da Praça Emilinha Borba. Esse último quarteirão também é o local dos bares, restaurantes e do burburinho que toma conta da rua a partir do fim da tarde – e que não tem hora para acabar.
Entre as muitas opções de compra disponíveis, os visitantes têm a oportunidade de degustar comidas típicas de outras regiões do país em estabelecimentos como o Mangue Seco Cachaçaria, que oferece um cardápio voltado às cozinhas mineira e nordestina; de outros países, como o Adega do Pimenta, com especialidades da culinária alemã; e a Casa Momus, com comida mediterrânea. O Bar Brasil, o Cantinho do Senado, o Santo Scenarium e mais outros tantos com uma variedade de ofertas em que não poderia faltar a diversificada culinária de boteco
Resgate cultural

Devido à sua diversidade, a Feira do Rio Antigo é também uma oportunidade extraordinária para desbravar aspectos pouco conhecidos da cultura brasileira. Nádia Godoy, cantora que há 6 anos se apresenta entre os casarios da rua, enaltece a importância do resgate cultural que a feira promove. “A Feira do Lavradio é, culturalmente, muito importante, porque os jovens conhecem aqui muitas coisas que até então não sabiam”.
A relevância da feira como local de transmissão de cultura e de democratização do espaço público é fervorosamente reiterado por diversos integrantes de seu cenário musical. O Grupo Dandalua Danças Populares, que há três anos promove rodas na Lavradio, tem como proposta central a divulgação da cultura popular brasileira e enxerga na Lavradio um meio para tornar isso possível. “Quem é de dança popular normalmente faz um trabalho de ocupação do espaço público e, de certa forma, a feira também é um meio de ocupar e democratizar esse espaço”, afirma Camila Lima, uma das integrantes do grupo.
O Dandalua realiza suas rodas de 15h às 17h, trabalhando a partir de releituras do repertório tradicional do samba em roda, jongo e coco, com o intuito de difundir a cultura afro-brasileira. Jéssica Rangel, que participa da equipe desde sua formação, em 2010, discorre sobre a pertinência de transmitir esses saberes para o público da feira. “Isso aqui é um processo periférico, afro-brasileiro, indígena, que conta a história do Brasil. É um processo de rua. É o saber popular do nosso povo aqui na Feira do Lavradio. É importante estarmos aqui porque se trata de um espaço privilegiado, composto em sua maioria por pessoas que observam [a roda] pela primeira vez e, a partir dessa premissa, buscam os processos culturais que nos pertencem”.
Honrando o propósito primordial do grupo, Jéssica acrescenta que “as pessoas precisam ter esse olhar de – para além dos instrumentos, ritmo e dança – buscar de onde vêm, porque a origem conta quem nós somos. A cultura popular brasileira nos mostra de onde viemos”.
Um passeio pela memória
Na Lavradio, além de todos os atrativos da feira, os visitantes têm a oportunidade de conhecer um pouco da história da cidade. Aberta em 1771 pelo Marquês, a rua teve sua época de ouro na segunda metade do século seguinte, quando acolheu diversos teatros, cafés e festas da alta sociedade brasileira da época, antes das reformas urbanas de Pereira Passos levarem ao chão a maioria das casas e converter muitos dos sobrados em cortiços. Entretanto, o movimento de revitalização que começou nos anos 90 e resultou no projeto Corredor Cultural vêm valorizando as construções que permaneceram. Lá, encontramos ainda de pé o prédio construído pelo Marquês de Lavradio para ser sua residência e que, atualmente, abriga a Sociedade Brasileira de Belas Artes. Outros remanescentes dos antigos sobrados são a sede da Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, que usou o jornal para fazer forte campanha contra Getúlio Vargas, e o Solar do Lavradio, um centro cultural que funciona em uma construção de 1777.
Em meio a expansões e transformações – tanto da geografia do local quanto da estrutura da feira –, uma característica que se mantém é a presença dos famosos antiquários da rua, muitos dos quais ocupam o andar térreo dos casarões históricos dos séculos XVIII, XIX e XX. Ainda que em menor número atualmente, eles representam a essência da feira em sua fase inicial, expondo seus móveis históricos e objetos raros em frente às suas lojas ao longo do primeiro quarteirão da rua. A Feira do Lavradio é, definitivamente, um passeio pela memória do Rio de Janeiro. Como diz Rachel Jardim, em seu texto O Lavrador-Tempo: “Será? Não, não é o Rio Antigo, é o espírito do Rio sobrevivido”.
Encontro de identidades
Representantes desse período inicial, os vendedores Wilma Souza Teixeira e Luiz Fernando Teixeira nos brindam com bom-humor e simpatia em sua barraca de antiguidades. Wilma, que já presenciou diversas administrações, conta que a mudança, com adoção de artesanatos, descaracterizou a feira. “Perdeu a identidade, na minha opinião. Porque nós éramos muitos expositores, tudo antiquário, sabe? Éramos eu e um monte de amigos antiquários. Aí, tudo bem, tem espaço para todo mundo, mas eu acho que perdeu a identidade.”

Wilma afirma que muitos dos seus amigos saíram da feira por conta dessa transformação e que os compradores assíduos de antiguidades e colecionadores pararam de frequentar o evento, pois não encontram mais o que lhes atraía. “Quem compra antiguidade mesmo não vem aqui. Comprador de antiquário que eu conheço não vem aqui e nem gosta de vir. Eles falam ‘não vou lá perder meu tempo, lá não tem o que eu gosto’”, revela a expositora.
Mesmo diante dessas questões, Wilma e Fernando continuam participando a cada edição e procuram outras formas de vender seus trabalhos. Sua carreira no ramo antiquário já dura 35 anos e sua paixão pela área faz com que Wilma persista na Feira do Lavradio. “Eu gosto da feira. É divertida, tem um público misturado, tem turista de tudo que é lado, tem turista brasileiro. Então eu gosto da feira. Perdeu o público de antiquário, mas tem outro público, que gosta de artesanato. Uma pessoa que vem de viagem quer levar coisa leve, não quer comprar coisa pesada para levar, então prefere um artesanato, que é mais fácil de botar na mala, na bolsa”, conclui.
Pouco antes do meio-dia, encontramos novamente com Maria, agora em seu cantinho favorito da Lavradio. As nuvens se foram, o tempo clareou e o público começa a crescer. Ela já teve tempo de circular pelas suas barracas favoritas, conversar com alguns dos rostos conhecidos e conferir as novidades. Como de rotina, comprou alguns itens, tanto para ela mesma quanto para amigos. “Eu já conheço as barracas, já sei onde estão minhas amigas, só compro presentes para as pessoas aqui, mas fico mais na área de artesanato, raramente saio daqui”, reconhece.
A preferência é por artigos que tenham utilidade prática, especialmente se forem confeccionados pelos próprios expositores. “Sou uma excelente compradora. Bolsa, pulseira, capa de chuva...”, enumera, enquanto mostra alguns dos achados desta manhã. Embora seu roteiro também termine no quarteirão gastronômico, Maria e seu marido costumam escapar de volta para a Zona Norte antes da agitação do fim de tarde. “Não ficamos para a música. A gente geralmente almoça, aí chega muito turista, o público muda, o pessoal já bebe muito. A esse ponto, os ‘idosos’ já se retiraram”, comenta a visitante, com sutil ironia.
Um pouco mais adiante, nos deparamos com um senhor simpático e alegre à espera de espectadores curiosos em seu pequeno espetáculo Samba na Caixinha. Situado em seu ponto cativo em frente à Praça Emilinha Borba, Sergio Biff é o artista que nos retrata um dia na casa da Tia Ciata, mulher negra e pobre que abre suas portas para receber aqueles que seriam pioneiros no samba, como Pixinguinha e Donga, e onde foi composto o primeiro samba registrado, Pelo Telefone. A arte, conhecida como teatro de lambe-lambe, anima os passantes nas reproduções de cenas com duração de 2 minutos e envolvendo um público pequeno por vez (1 ou 2 pessoas). Sérgio está há pouco mais de 2 anos expondo na feira e tem orgulho de apresentar para quem o quiser assistir: “Nada mais democrático. A gente apresenta para o mendigo, para qualquer pessoa que passa. É uma felicidade a gente ter esse trabalho que a gente apresenta na rua.”, diz o artista. Sérgio participa também de outros projetos de arte na rua (B.A.S.E. S, do Sesc e Fórum de Arte Pública, de Amir Haddad) e ensina a fazer a caixinha, confeccionada com material de reciclagem, que, em conjunto às esculturas retratistas, formam um belo espetáculo.

Experiência sensorial
Essa energia pulsante, que todo primeiro sábado do mês permeia a charmosa e histórica Rua do Lavradio – que já foi lar de personagens ilustres da história da cidade, como Duque de Caxias, Marquês de Olinda e João Caetano – não deixa dúvida de que esta é uma experiência cultural riquíssima. A mistura genuinamente carioca de artesanato, antiguidade, gastronomia, musicalidade e lazer cria um clima único e faz do evento um verdadeiro deleite para os sentidos. Entre uma barraca e outra, o cheiro de diferentes comidas estimula o paladar de quem por ali passa, enquanto uma ampla gama de estilos musicais regozija seus ouvidos e a exposição dos mais variados artigos deslumbra sua visão. Em seus 500 metros de extensão, a feira proporciona aos transeuntes uma experiência sensorial completa e prazerosa.
Caminhando na altura das tendas de artesanato, temos uma prova viva de como é difícil classificar as experiências desse evento. Se nos deixarmos guiar pelos ouvidos, poderíamos jurar que acabamos de escutar o som de um saxofone emanando de uma vitrola à venda em um dos diversos sebos ambulantes montados ao longo da rua. Mas não se trata de uma vitrola, nem de um saxofone propriamente dito – e sim de uma pequena demonstração de Itiberê de Andrade, artesão especializado na confecção e reparo de instrumentos de corda com caixa de ressonância. O instrumento em questão é o “bamboo-sax”, um instrumento fabricado inteiramente de materiais sustentáveis, como bambu, cabaça e cortiça, e afinado em sol maior.

“O saxofone é meu carro-chefe, até por conta de ser um instrumento bem caro aqui no Brasil, então é o que faz mais sucesso”, conta o luthier, que fabrica todos os instrumentos expostos em sua barraca – os quais também incluem flautas, instrumentos de corda e tambores. Para Itiberê, a Lavradio é uma oportunidade única de interação com a comunidade de músicos do Rio. “Eu participo desta feira há 13 anos, desde uma época em que vinha bem menos gente. E é interessante, é um lugar onde eu tenho contato direto com o carioca. Outro dia eu vendi um baixo acústico para um cliente de uma banda de jazz, onde a gente foi negociando por dois, três meses... então é um ponto de encontro. Porque eu tenho uma barraca em Ipanema assim, e lá é uma coisa mais de turista. Aqui não, aqui é aquela coisa de estar integrado com o carioca mesmo”.
Uso político do espaço público
Itiberê é uma das peças desse mosaico que foge à definição – artista, artesão, músico e pesquisador. A mistura das técnicas rústicas, sua formação musical e afinação eletrônica garantem uma timbragem fiel em relação aos instrumentos convencionais. Quando não está expondo ou fabricando o que ele chama de “instrumentos ecológicos e econômicos”, ele também organiza oficinas, nas quais ensina crianças e adultos a montar algumas de suas peças. É ali que ele pode passar adiante suas contribuições inovadoras ao campo da sustentabilidade musical, ou como ele próprio diz, “resgatar traços de culturas mais primitivas e trazê-las para os dias de hoje”.
Essa conscientização e uso político desse espaço público é tema recorrente entre os músicos da feira. Retraído em uma praça localizada em frente ao Centro Integrado de Educação Pública José Varela, o Bloco das Tubas – parte do movimento de neofanfarra do Rio de Janeiro – compartilha essa visão. Ele se apresenta nas ruas da cidade por acreditar na importância da horizontalização promovida pela música de rua.
Elisa Maria Campos, uma de suas membras, explica: “Eu chego aqui e não sei quem é meu público. Sou igual a todos, não estou em um palco, longe, em que ninguém me alcança. Estou ali, circulo entre eles, brinco com eles e [dessa forma] utilizo a música como um meio de aproximação e ativismo político”.
A música de rua é, para Elisa, um trabalho feito por amor e ideologia. Ela é categórica ao afirmar sobre seu uso político: “tem uma questão para a gente que é importante: saber usar a música como um instrumento, uma arma. A gente tenta criar uma cidade para as pessoas, onde o espaço público seja democrático e ocupado, onde a população tenha voz e onde a gente consiga expressar o que a gente e o que a cidade quer”.

A Feira do Rio Antigo é, portanto, mais do que um mero evento mensal no coração da Lapa – muito mais do que um simples destino de lazer e compras, mais do que um ponto de partida para a vida noturna do bairro. É, também, cenário de importantes manifestações culturais e políticas da cidade, onde a rua é o palco, a feira o evento e as pessoas seus personagens. Do artesão ao transeunte, passando pelos músicos e saltimbancos, cada um ali é responsável por torná-la a potência que ela é: esse organismo vivo e em constante movimento que transborda a diversidade da cultura carioca.




















Comentários