Novela, O Musical
- 11 de jun de 2017
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Musicais nunca foram o ponto forte do teatro brasileiro. Sempre atraíram um público pouco expressivo e somente quem se interessava realmente pelo tema do que estava sendo apresentado. E, pensando em atrair cada vez mais pessoas, uma onda de adaptações de novelas para os palcos começou a surgir, principalmente nessa última década. O formato de musical permitiu que as tramas fossem recontadas de forma mais animada e atrativa, fazendo com que as pessoas passassem a procurar mais os teatros para reviver épocas e histórias que marcaram as suas vidas.
Um panorama histórico
Os musicais, que se inserem dentro da perspectiva do teatro musical, são mundialmente conhecidos por sua grandiosidade e qualidade em países como os Estados Unidos. A Broadway, que na verdade é uma famosa rua localizada em Manhattan, Nova York, tornou-se líder no quesito espetáculos do teatro musical. A história da Broadway começa em no século XVIII, quando o primeiro grande teatro nova-iorquino foi finalmente construído.
Do ponto de vista histórico, o Brasil possuiu uma grande influência no início do século XIX das companhias francesas que visitavam o Brasil para apresentar-se para a corte portuguesa que aqui vivia. Nessa época, o país tinha como principal forma de teatro musical a Revista, que compreendia um modo de fazer teatro em que sua principal função era difundir formas de viver, se vestir, basicamente costumes - algo que pode ser analisado sob perspectiva antropológica.
Esse modo de fazer teatro incluía textos irônicos e alegres, e recebeu a contribuição de nomes como Carlos Gomes e Chiquinha Gonzaga. Após a decadência do teatro de Revista nos anos 1960, iniciaram-se as montagens de musicais provenientes do mundo norte-americano: a Broadway começa a interagir com o público brasileiro, por meio de adaptações e novas formatações dos musicais para serem apresentados em solo brasileiro.
Durante a Ditadura Militar, houve a ascensão de musicais com conotação política, como Roda Viva, Calabar, Gota D’Água e Ópera do Malandro, todos do mestre da música popular brasileira, Chico Buarque de Hollanda. A partir dos anos 1990, a tendência dos musicais biográficos foi altamente perceptível, com as montagens de “Metralha” (1996), sobre Nelson Rodrigues, “Ô Abre Alas (1998) sobre Chiquinha Gonzaga, e até mesmo “Crioula” (2000), sobre Elza Soares.
Nomes prestigiados na lista de musicais da Broadway, Les Misérables (2001), Chicago (2004) e Fantasma da Ópera (2005), apresentados em São Paulo, representam um marco para o teatro musical brasileiro. A partir dessas apresentações, o Brasil torna-se mercado internacional, e audições à la Broadway começam a ocorrer em território nacional. Da mesma forma que a chegada de espetáculos infantis como O Rei Leão e O Mágico de Oz também atraem um público cada vez mais variado, incluindo as crianças. No cenário brasileiro, atores-cantores como Miguel Falabella, Ney Latorraca, Cláudia Ohana, Marília Pêra, Cláudia Raia, já fazem parte do teatro musical.
Atualmente, começa-se a ver a adaptação de novelas, que fazem grande sucesso com os telespectadores brasileiros, para os palcos. O musical “Vamp”, baseado na novela que marcou uma geração dos anos 1990, estreou no dia 17 de março deste ano, no Rio de Janeiro, e inaugura uma possível nova tendência para o teatro musical no Brasil.
Direto das telinhas
Apostando em atrair um público diferente para o teatro, novelas icônicas da televisão brasileira estão sendo cada vez mais adaptadas e virando musicais de sucesso. Essa é a nova onda do teatro de musical no Brasil. As trilhas sonoras das novelas são tão importantes quanto a sua trama em si, e, justamente por conta disso, as adaptações teatrais conseguem, mesmo que suprimindo alguns personagens secundários e tramas paralelas, serem bem fiéis às histórias centrais, que são contadas aos detalhes e com personagens principais extremamente fortes.
Esse novo tipo de adaptação começou com Claudia Raia em 2014, quando ela lançou a peça “Raia 30” onde alguns de seus personagens mais icônicos foram reinterpretados de modo musicado pela atriz e que fez grande sucesso com o público no geral. Logo após, em 2016, a novela “Os 10 mandamentos” foi a primeira a ser completamente adaptada para o teatro e fez parte do grande circuito de produções do Teatro Musical. Com efeitos especiais deslumbrantes e canções inéditas compostas por Wladimir Pinheiro – indicado, por isso, ao Prêmio Bibi Ferreira –, a peça atraiu um grande público para os palcos, assim como fez na televisão com recordes de audiência.

Fonte: www.backstagemusical.com.br/single-post/2016/05/21/3-Motivos-para-Rever-Raia-30-O-Musical
Em entrevista à Globo.com, o maestro Fabio Gomes de Oliveira, presidente da Associação dos Produtores de Teatro Musical disse que a leva de adaptações da Broadway que veio para o Brasil consolidou a cultura dos musicais no país e que agora é natural que a indústria se volte para produções nacionais. Com a mais nova adaptação de “Roque Santeiro”, o Brasil se transformou no terceiro maior produtor de musicais adaptados do mundo todo.
– O Brasil tem uma riqueza enorme de obras em diversas mídias. Buscar interseções entre as áreas é uma tendência mundial que aqui começa a ser mais explorada neste momento – afirma o maestro, responsável por grandes espetáculos, como a primeira adaptação do filme “New York, New York” para o teatro.
Em visita ao Rio de Janeiro, no último mês, Anna Elisa, de 24 anos e moradora de Natal, RN, assistiu o musical VAMP com seu namorado e disse que foi uma experiência maravilhosa. Além disso, mesmo não assistindo a novela original, Anna conseguiu captar a essência da história através do bom trabalho dos atores que, segundo ela, transmitiram muito bem a essência da novela.
“É um teatro que dá pra ver o palco muito bem. Eu consegui compreender muito bem a história, foi uma peça muito bem feita, com atores muito bons. Tudo muito bem feito” reitera.
Em cartaz
A tendência dos musicais de novela já parece estar mostrando resultado. O sucessos das montagens, aos poucos gera mais apostas no gênero, que atualmente conta três obras em cartaz no Brasil:
“Vamp, O Musical”
A comédia de terror musical de autoria de Antonio Calmon e com a direção geral de Jorge Fernando presenteia o público com a conhecida história de uma cantora que vende sua alma a um vampiro em troca da promessa de que sua carreira irá deslanchar. O que o vilão não esperava, é que ele fosse se apaixonar por sua vítima, que tenta escapar de todas as formas da maldição de ser uma vampira eternamente.
Além de fiel a história da novela, a peça traz Claudia Ohana e Ney Latorraca para interpretarem seus antigos personagens, Natasha e Conde Vlad, novamente. O cenário de José Claudio Ferreira, os figurinos de Lessa de Lacerda e as músicas dirigidas por Tony Lucchesi, também tem como objetivo gerar o sentimento de nostalgia no público.
Fonte: http://vampomusical.com.br/fotos
A peça fica em cartaz até o dia 28/05, no Teatro Riachuelo, no centro do Rio, em diferentes horários: às quintas e sextas às 20h30, aos sábados às 16h30 e às 20h30, e, finalmente, aos domingos às 16h30. Os ingressos da peça vão de R$50 a R$180, variando seu preço de acordo com o mapa de assentos, dia e horário de exibição.
“Roque Santeiro, O Musical”
A novela escrita inicialmente em forma de peça censurada pelo governo militar, ganhou o coração dos brasileiros quando adaptada para a televisão nos anos 80. Agora, em forma de musical, a peça ganha os teatros na versão integral do autor Dias Gomes. Com direção geral de Débora Dubois, “Roque Santeiro, O Musical” volta com o mistério de Cabo Roque sendo dado como morto sem um corpo para comprovar o fato. A partir desse suposto sacrifício pela pátria, o comércio turístico na cidade de Asa Branca passa a girar em torno do mito do herói. Porém, 20 anos depois da cidade se desenvolver com os lucros provenientes da história, um homem aparece dizendo que é o supostamente morto, Roque Santeiro e várias tramas cômicas se iniciam.
Ao contrário de “Vamp”, “Roque Santeiro” não é tão fiel à novela e tenta trazer uma cara nova para a trama. Com direção musical de Zeca Baleiro, que compôs as canções tocadas ao vivo na apresentação, a peça só toca dois trechos de canção “Roque Santeiro” do grupo “Sá & Guarabyra” que eram recorrentes na novela. Além disso, o elenco é atualizado e traz alguns rostos conhecidos da TV como Mel Lisboa (“Presença de Anita” e “Como Uma Onda”), no papel de Mocinha, antigamente de Lucinha Lins, e Flavio Tolezani (“Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!”) como o próprio Roque Santeiro, que era vivido por José Wilker nas telinhas. Do teatro, a peça traz atores renomados como Jarbas Homem de Melo (“Cabaret” e “Chaplin, O Musical” ) que interpreta Chico Malta, antes vivido por Lima Duarte, e Livia Camargo (“Hair” e “Mágico de Oz” ) no papel de Viúva Porcina, interpretada por Regina Duarte na novela.

Fonte: http://roquesanteiroomusical.com.br/wp-content/uploads/2016/09/capa_com_logo-2.jpg
A peça também só fica em cartaz até o dia 28/05, no Teatro FAAP, no centro paulista. Exibida às sextas e sábados às 21h e nos domingos às 18h, a peça tem ingressos que vão de R$50 a R$90.
“Carrossel, O Musical”
A novela infantil de origem argentina, ganhou em 2012 uma versão criada por Íris Abravanel que ganhou o público brasileiro. A prova do sucesso foram os dois filmes que sucederam a trama em 2014 e 2016. Agora, mais de 5 anos depois do início da exibição da novela, Carrossel ganha os palcos em forma de musical.
Na peça escrita por Fernanda Maia, assistimos a rotina dos alunos da Escola Mundial. Uma instituição de ensino que é aberta para alunos de diferentes crenças e classes sociais. Lá além de brincarem e viverem grandes aventuras, Cirilo, Maria Joaquina e todos os seus amigos têm aulas com a professora Helena, uma moça atenciosa que compreende a personalidade e necessidade de cada um de seus alunos.
Apesar de não ser completamente formado pelo elenco original, o musical dirigido por Zé Henrique de Paula se mostra fiel nos aspectos de roteiro e traz parte do figurino e do cenário usados na gravação da novela. Além disso, Rosanne Mulholland dá vida novamente à professora Helena nos palcos.

Fonte: www.sbt.com.br/sbtnaweb/musical/85265/Carrossel-O-Musical-leva-historia-da-novela-ao-teatro.html
“Carrossel, O Musical” tem sessões aos sábados, às 16h e domingos, às 15h. A classificação é livre e os preços variam entre R$50 e R$150.
Vem aí
Com o sucesso e repercussão da aposta nesse novo formato, o futuro parece próspero. A próxima telenovela a ser adaptada é também do dramaturgo Dias Gomes, autor de “Roque Santeiro, e será o clássico “O Bem-Amado”.
A estréia do musical está prevista para setembro, em São Paulo e quem interpretará o icônico personagem Odorico Paraguaçu será Nelson Freitas Jr. A direção cênica será de José Possi Neto e a direção musical pelo maestro Fábio Gomes de Oliveira. Fábio certamente terá uma tarefa densa pela frente, uma vez que, originalmente as canções, em quase toda sua totalidade, eram compostas por Toquinho e Vinícius, e incluem canções como “O Bem Amado” (tema de abertura da novela de 1973), “Veja Você” e “Meu Pai Oxalá”.
A novela de 1973 foi inspirada na obra teatral também de Dias Gomes, “Odorico, o Bem-Amado” ou “Os Mistérios do Amor e da Morte”, e com tom cômico-irônico criticava a farsa sociopolítica que vivíamos no período da ditadura.
O enredo tinha como cenário a cidade fictícia no litoral baiano, Sucupira, e a trama desenrola-se ao redor do cotidiano dos habitantes daquela cidade e a figura dos coronéis - políticos e fazendeiros - que exerciam papel dominante na população.
O personagem chave é o prefeito populista e corrupto Odorico Paraguaçu (interpretado originalmente na novela por Paulo Gracindo), que constrói o primeiro cemitério da cidade. Obviamente, ele queria inaugurar sua grande obra, no entanto, nenhum habitante morre para estrear o local. Uma série de subtramas desenvolvem-se e garantem o tom divertido, mas ainda assim muito perspicaz em sua crítica.
O sucesso da novela na época foi tão intenso que, 4 anos após o primeiro lançamento, foi reapresentada uma versão mais compacta. Tornou-se também seriado de televisão entre 1980 e 1984. Em 2010, foi adaptada para o cinema, tendo Marco Nanini como o prefeito Odorico.
“O Bem-Amado” consiste em um verdadeiro marco da teledramaturgia brasileira, pois foi a primeira telenovela em cores e também foi primeira a ser exportada (Uruguai, Estados Unidos, países da América Latina e Portugal). Certamente a adaptação para musical fará jus ao legado da obra.
Apostas para o futuro
Não há dúvidas de que o sucesso de empreitadas como os musicais de “Vamp”, “Roque Santeiro” e “Carrossel”, entre outros, irá abrir a porteira para que outras produções façam a transição das telas para os palcos. Em uma cultura onde as telenovelas são o principal produto de consumo audiovisual, não é difícil conseguir matéria-prima para os espetáculos. E já que ter um público fiel e identificado com o produto original representa metade do caminho para um espetáculo de sucesso, quais seriam as novelas que deveriam ganhar adaptações musicais no teatro?
No fim de 2016, em ocasião dos 65 anos de exibição da primeira telenovela, o jornalista Nilson Xavier, do site UOL, promoveu uma votação com especialistas no assunto para escolher as 10 melhores novelas de todos os tempos. Curiosamente, Roque Santeiro foi escolhida encabeça a lista. Em um exercício de imaginação, que tal adiantar o trabalho dos produtores de teatro e indicar as outras duas novelas que fecham o TOP 3 desta lista para ocuparem os palcos do país?
Avenida Brasil (João Emanuel Carneiro; Rede Globo -2012)

Fonte: 68.media.tumblr.com/a58d3f6af72dc5d5cb03456ff1edf718/tumblr_mt1e3r14vd1siopxso1_500.gif
Maior sucesso da história recente da televisão, a novela contava a história de Rita, uma jovem órfã que deseja vingança contra Carminha, a ambiciosa companheira de seu pai, e quem a menina culpa pela morte de Genézio. A montagem dos palcos certamente apresentaria vários dos gêneros musicais da novela, que retratava o ambiente do subúrbio carioca: muito funk, samba e coreografias características, como o Passinho. A produção contava com um elenco cheio de estrelas da televisão, que dificilmente conseguiriam se reunir nos palcos. Ainda assim, a presença de Adriana Esteves, reprisando seu papel como uma das maiores vilãs de todos os tempos, seria a garantia de sessões esgotadas para a peça.
Vale Tudo (Gilberto Braga; Rede Globo – 1989)
Uma novela que revolucionou a programação da Rede Globo quando exibida originalmente, Vale Tudo voltaria aos palcos com um tema atualíssimo, ainda que quase 30 anos depois do seu fim na TV. A trama retratou a corrupção sistêmica no país, os famosos “jeitinhos” que muita gente dá pra conseguir crescer na vida e muitos outros assuntos sérios que se tornaram tópico de muita conversa na sociedade. O maior mistério da trama, o famoso

Fonte:/i0.wp.com/s.glbimg.com/et/tv/f/original/blog/aecab3ce-4c27-4d12-a219-1cb134e8162a_Leila_ValeTudo.gif
“Quem matou Odete Roitman?” teria de ser atualizado, para manter o interesse na trama. Na parte musical, o rock seria presença certa – com destaque para uma provável releitura do clássico “Brasil”, de Cazuza, tema de abertura da novela.


































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