Balonagem: uma arte clandestina
- 11 de jun. de 2017
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É junho. No Rio de Janeiro, o termômetro marca 19 graus e o carioca parece que vai congelar com temperaturas tão amenas. Os cheiros da canjica, do caldo verde e do milho envolvem o ambiente. As crianças correm em volta da fogueira, vestidas em roupas quadriculadas. Lá em cima está ele: a atração principal. O balão vai subindo, vai caindo a garoa. Não existe São João sem balão. A tradição milenar, considerada crime no Brasil, ainda está presente em grande parte das comemorações juninas. Para alguns, arte. Para outros, ameaça. A dualidade dessa manifestação cultural é o que a torna tão fascinante.
O balão sempre esteve presente na cultura brasileira. No início, seu objetivo principal era comunicar. Enquanto subia, avisava às famílias que a festa estava para começar. Depois, virou símbolo da comemoração e não deixou mais de participar das festanças. A cor e o fogo transmitem a alegria da data, e para alguns, é essencial para manter a tradição.
Por outro lado, a prática da balonagem pode ser considerada uma ameaça. Com um alcance de até 100 metros de altura, o balão representa um risco ao espaço aéreo e pode provocar acidentes envolvendo aeronaves. Vale lembrar ainda a possibilidade de queimadas. São comuns os acidentes ambientais causados pela queda de balões ainda com a chama acesa. Por isso, no Brasil, soltar balão é crime e está previsto no artigo 42 na Lei de Crimes Ambientais. A pena varia de um a três anos de prisão, podendo incorrer em pagamento de multa.

Mas, se para uns o balão é um sinônimo de perigo, para outros significa uma manifestação artística. Na visão dos praticantes, a balonagem vai muito além de uma simples diversão. Um baloeiro, que não quis se identificar, conta que se apaixonou pela prática ainda criança, quando acompanhava os irmãos mais velhos. Ele conta, animado, que já participou de um grupo de baloeiros considerado referência na cidade do Rio de Janeiro. Mas X preferiu se afastar devido às questões legais que envolvem a atividade. Aos 33 anos, o homem ainda tenta se manter próximo daquilo que gosta. Durante as festividades juninas, período em que a legislação apresenta brechas, X revela que confecciona e solta pequenos balões.
Apesar de estar fora da época, recentemente o artista reuniu um grupo de amigos para fabricar e soltar balões de pequeno porte. "A experiência é ótima! Amo confeccionar e soltar os [balões] juninos. Somos quase todos pais de família, todos trabalham, todos conhecem um a família do outro. A arte nos traz boas amizades”. E nem sempre é só pela experiência. “Eu também consigo fazer e rifar balões de pequeno porte e ganhar dinheiro com isso" acrescenta. No entanto, a preocupação com a criminalização da atividade está sempre presente. O baloeiro afirma que leva os balões produzidos por ele para longe dos centros urbanos e ressalta que nunca teve problemas com a justiça.
Em favor da legalização da prática, X defende que nunca houve um acidente aéreo que, comprovadamente, tenha sido causado por balões. "Eu penso ser um exagero. O balão sempre existiu no Brasil e faz parte do nosso folclore. Sei de alguns acidentes, mas eles não são tão frequentes. Os balões grandes geralmente caem apagados, muitos deles, na água ou, quando caem em terra, tem várias pessoas para resgatar." Segundo ele, o tratamento da mídia sobre o assunto compromete a opinião das pessoas acerca da balonagem. O artista conta que já ouviu vários depoimentos de pessoas que apreciam o espetáculo dos balões e que tinham uma visão distorcida da prática, devido ao estereótipo transmitido pelos meios de comunicação. "A mídia nos trata como criminosos, como se fossemos uma gangue, mas não é bem assim. A mídia faz a cabeça das pessoas e os leigos no assunto acreditam naquilo que veem na televisão", critica.
Defensor da atividade, o baloeiro afirma que essa prática faz parte de outras culturas. Segundo ele, em países como Colômbia e México, a prática é, inclusive, apoiada pelo governo. Na cidade de Cantoya, no México, acontece, de acordo com X, o maior festival de globos de papel de seda - termo hispânico para a palavra "balão". Na Ásia, em países como Índia e Filipinas, além de permitida, a confecção seria ensinada às crianças desde muito cedo, sendo tradicional a produção de balões para o que classificou como “festas juninas”. Ele explica ainda que até mesmo na Europa - na França e em Portugal, por exemplo - a balonagem é uma tradição.
A arte secular de soltar balões

Objeto de espionagem. Avanço para a Comunicação. Meio de transporte. Todas essas funcionalidades deram origem ao que hoje é a prática criminalizada de soltar balões. Graças à existência dos balões, geógrafos, zoólogos, meteorologistas e exploradores mapearam o mundo.
O balonista Jean-Pierre Blanchard, em 1785, ambicionou atravessar o Canal da Mancha, levando uma mensagem da França para a Inglaterra. Quase no fim da viagem, o balão começou a perder altitude, forçando os tripulantes, Jean e o patrocinador americano, a se desvencilharem dos pertences como roupas, utensílios e a própria carta. Chegaram sãos e salvos do outro lado, sem o comunicado, mas tornando possível o correio aéreo.
O imperador Napoleão Bonaparte utilizava o artifício para espionar os inimigos no campo de batalha. Em 1858 o fotógrafo Félix Nadar tirou a primeira aerofotografia, na cidade de Paris, com o auxílio de um balão de ar quente. O mesmo aconteceu na década de 1860, durante a Guerra Civil Americana. Ambos os lados utilizavam balões ancorados para observar o oponente.
No Brasil, os festejos de São João introduziram os balões nas vizinhanças e vilarejos. A prática se espalhou pelo país e, desde o século XVIII, faz parte da cultura popular, principalmente, no Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo. Na época, os balões eram utilizados para avisar os vizinhos das festas juninas. Hoje são classificados pelos admiradores como manifestação artística e estão mais presentes nas metrópoles.
A balonagem na perspectiva sociológica

A visão da sociedade sobre a arte varia de acordo com o tempo e o espaço. Com a balonagem acontece o mesmo. Manifestações simbólicas de resistência e arte, como a capoeira e o samba, por exemplo, já foram um dia marginalizadas. A balonagem fez o caminho inverso. O crescimento das cidades, da população e o surgimento de grandes metrópoles e aeroportos são alguns dos motivos que, segundo o sociólogo e professor Lúcio Braga, podem ter construído uma imagem negativa dos baloeiros. “Quando Durkheim diz que o fato social pode ser fixo ou não, significa que pode mudar com o tempo, dependendo das práticas sociais”, analisa. “Soltar balões era visto como uma prática social aceitável e mais do que isso, como uma coisa até positiva. Criavam elos de relação social nas comunidades, de reconhecimento”. As turmas de baloeiros formavam então grupos sociais, com modos específicos de falar, vestir, interagir e se colocar na sociedade, diferenciando-as dos outros grupos. “O balão servia como uma forma de sociabilidade, de reconhecimento social”, lembra.
O que transformou o sentido do balão na sociedade? Para uma explicação, Braga recorre aos conceitos de outro sociólogo, o britânico T. H. Marshall, que propõe uma ideia de direitos relacionados historicamente, como os direitos civis, políticos e sociais através dos séculos. “O que levou a proibição da balonagem diz respeito ao que na sociologia hoje se chamam de direitos de quarta geração. Vamos ter direitos relacionados ao pluralismo democrático, a outra visão da sociedade. Nesse sentido, vou incluir aqui o direito ambiental. Quer dizer, a ideia de que o meio ambiente também tem direitos”, explica. A proibição, portanto, estaria relacionada aos riscos que a prática traz à natureza e às comunidades, além do direito de viver em uma sociedade em que se possa compartilhar dos benefícios da preservação ambiental. E ele conclui: “soltar balão vira um crime porque vai de encontro a essa nova prática, já dos séculos XX e XXI, que é o direito ao meio ambiente”.
Em meio a esse novo cenário, ainda existem grupos que resistem às atuais práticas sociais. As turmas de baloeiros ainda persistem, mesmo que marginalizadas e às escondidas de boa parte da sociedade. São páginas de Facebook – algumas com mais de 20 mil curtidas – e revistas que divulgam e lutam por sua forma de arte. “A balonagem hoje vai ser considerada algo menos civilizado, porque vai de encontro a essas práticas sociais contemporâneas, aqui os direitos ambientais, que hoje são vistos como algo geral, coercitivo e exterior na sociedade – ou seja, um fato social”, completa o sociólogo.
Uma alternativa ao conflito
Desde 1998, soltar balão é crime no Brasil. Mas por conta do seu valor cultural, a criminalização é duramente criticada. É o caso de Marcos Real, presidente da Sociedade Amigos do Balão, com sede no Rio de Janeiro. Ele estima que 100 mil balões sejam soltos anualmente no país e reitera que não há registros de acidentes aéreos causados por balão. “Em nenhum país do mundo existe proibição total como a que existe no Brasil. Há no máximo uma restrição para determinado período do ano”, compara.

A determinação da lei continua em virtude dos perigos de incêndio ou interferências aéreas. O posicionamento dos bombeiros aponta os perigos e questiona a legitimidade da prática enquanto cultura. A corporação defende uma adaptação do modelo tradicional do balão, como o balão sem fogo. Construído com material biodegradável e inflado com ar quente — geralmente por meio de maçarico — esse tipo de balão não carrega bucha, cangalhas inflamáveis nem fogos de artifício. Sem o peso, o artefato se mantém por mais tempo no ar e percorre distâncias maiores. Mas é o fato de ter tons escuros na parte superior que faz o papel absorver o calor do Sol e assim preservar o ar interno mais leve que o externo.




















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