top of page

Oficina de Sonhos: uma luta por transformação

  • 11 de jun. de 2017
  • 3 min de leitura

Confraternização na Oficina/ Reprodução: Oficina de Sonhos


Os fogos anunciam o começo de mais um confronto armado, um novo episódio entre policiais e traficantes. Moradores assustados buscam abrigo entre os becos e vielas da comunidade do Fogueteiro, no centro do Rio de Janeiro, rezando para que suas vidas sejam preservadas. O som dos tiros que ecoa por toda parte estremece os vidros das janelas, aterrorizando a vida de muitas famílias que, nesse momento, só têm uma dúvida: quem foi a vítima dessa vez?

O projeto social Oficina de Sonhos, atualmente liderado por Josias Neves, Magno Gabril, Saulo Nicolai, surgiu em setembro de 2015 como uma resposta dos moradores aos índices de violência na região. O projeto oferece aulas de música, fotografia, dança e promove diversas outras oficinas artísticas, que beneficiam crianças e jovens, com idade entre 7 e 14 anos, no Morro do Fogueteiro. Para participar, é necessário autorização dos pais ou responsáveis e a criança deve estar devidamente matriculada na escola.


A criação do projeto foi através de uma mobilização de moradores, que chegaram ao consenso de que a comunidade estava precisando de atividades lúdicas para manter os jovens fora da criminalidade. Com referências em outros projetos sociais, de comunidades vizinhas e até mesmo do Fogueteiro, como o Estrela do Amanhã, grupo de dança criado pela moradora Odete Barreto, a Oficina de Sonhos realizou várias ações em prol da cultura e educação.


O “Corte Literário” foi uma dessas atividades educativas que promoveu o estímulo a leitura, funcionando da seguinte forma: a criança que lesse um livro e contasse a história, ganhava um corte de cabelo gratuito. Outra ação importante, foi o “Trote Solidário”, em que alunos, professores e coordenadores do curso de Relações Internacionais da Universidade Estácio de Sá doaram diversos livros, didáticos e literários, para os jovens da Oficina.


Além das aulas de arte, dança, música e fotografia, o projeto aborda temas super relevantes, como poluição na comunidade - um dos principais fatores para a proliferação de doenças-, bullying nas escolas, preconceito e identidade social.

Aulas de arte na Oficina de Sonhos / Reprodução: Oficina de Sonhos

Josias Neves, morador da comunidade e um dos atuais gestores do projeto, afirma que a educação é a única arma necessária para acabar com a violência. “Nós queremos construir legados, potencializando o talento dos jovens para que eles conquistem um futuro melhor. É um desejo por mudança e, portanto, não basta ficarmos parados. A Oficina de Sonhos é a nossa vontade, nossa dedicação, mas também é uma revolta contra o sistema”, destacou ele.


Ao longo desses quase 2 anos, a falta de recursos sempre foi um empecilho para a continuidade e durabilidade do projeto. Inicialmente, os moradores financiavam a Oficina com suas próprias rendas mensais, que eram utilizadas para comprar material e lanches. Aos poucos, eles foram recebendo algumas doações, como as do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), que enviou professores e um pequeno auxílio financeiro, a empresa MGI Tecnogin, que doou cadeiras e mesas escolares, e até uma corporação alemã, que contribuiu com 500 euros.


A forte criminalidade no Fogueteiro, com intensos conflitos diários, afastou muitos apoiadores. As atividade precisavam ser autorizadas tanto pelo tráfico quanto pela polícia, o que dificultava a logística. Os moradores e fundadores que financiaram o projeto se sobrecarregaram, devido a crise, problemas familiares e opressão policial, e aos poucos foram deixando de contribuir. “A Oficina foi perdendo intensidade com a falta de apoio, por conta da segurança. É muito complicado se manter numa comunidade violenta” lamentou Neves.


O projeto mudou a realidade dos moradores, que descobriram como a mobilização e a liderança são capazes de promover mudanças. Depois da implementação do projeto, surgiu uma associação de moradores na comunidade, líderes que lutam por transformações sociais. Atualmente, a Oficina passa por uma fase complicada, sem apoiadores e investimento, os atuais gestores buscam visibilidade e patrocínios. “Queremos tornar a Oficina de Sonhos uma referência no Brasil, podendo atuar livremente sem opressão e medo”, destacaram.


Comentários


 procurar por TAGS: 
 Editorial

Quase sempre, quem escreve a história são os vencedores e conquistadores, já dizia Nehru, primeiro Primeiro Ministro da Índia. Qual o espaço das periferias e minorias na história do mundo? Quem não está no centro, aqueles que, como diria Machado de Assis, não ganhou as batatas, perece nas margens do tempo.

Mas a cultura popular não só existe, como resiste. Com seus saraus, feiras, comidas e músicas, o povo continua fazendo sua cultura. Em tempos de um senado considerando a criminalização do funk, faz-se muito necessário a recordação e apreciação da história dos marginais, dos heróis ocultos de nossa sociedade. Esta edição da revista digital Janelas do Olhar mergulha em uma atmosfera de resgate e exaltação à memória das expressões de cultura popular, por vezes excluídos do meio hegemônico. 

© 2017 por Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W
bottom of page